Como escolher a creche ou pré-escola particular ideal para o seu filho? O que a escola para crianças de até 6 anos deve ter? A que você escolheu está mesmo fazendo o melhor por seu filho? Nossas pistas vão ajudar a descobrir!
O melhor caminho é fazer
perguntas simples e observar o funcionamento da escola, por exemplo, as
crianças parecem felizes? Brincam sozinhas? Tem uniforme?
Um dos primeiros dilemas de qualquer mãe ou pai de crianças pequenas é o que levar em conta na hora de eleger a escola de educação infantil.
Essa é mesmo uma escolha importante: hoje se sabe que os primeiros anos
de formação repercutem nas fases seguintes de escolaridade, na saúde e até na personalidade.
Desde
a década de 1980, o avanço das tecnologias de mapeamento cerebral
confirmou a espantosa velocidade de formação de neurônios nesse período
da vida, bem como a imensa plasticidade do cérebro, ou seja, sua
capacidade de se modificar à medida que novos conteúdos são absorvidos.
"Trata-se de um período crucial, no qual se formam mais de 90% das
conexões cerebrais graças à interação com os estímulos do ambiente",
afirma João Augusto Figueiró, médico e psicoterapeuta do Hospital das
Clínicas e presidente do Instituto Zero a Seis, em São Paulo. Não à toa,
pesquisas mostram que crianças que frequentam uma pré-escola
estimulante costumam se tornar melhores estudantes. É o que assegura a
pesquisadora inglesa Brenda Taggart, que desde 1997 estuda o impacto da
formação infantil. Em comparação com as que não foram matriculadas na
pré-escola ou que frequentaram escolas inadequadas, elas se revelaram
mais cooperativas, independentes e sociáveis, além de apresentar
desempenho escolar satisfatório. "A passagem por escolas infantis
competentes tem influência a curto, médio e longo prazo", afirma.
Mas
atenção: o objetivo da educação infantil não é antecipar etapas. Antes
de começar as visitas a escolas candidatas, deve-se ter em mente que uma
criança com menos de 6 anos precisa brincar, investigar e explorar o
ambiente ao seu redor. Por isso, tentativas de iniciar muito cedo a
alfabetização são vistas com reservas: é necessário cuidado para não
atropelar etapas e lembrar que cada uma tem seu ritmo. A brincadeira
desempenha papel decisivo. É por meio dela que o pequeno compreende como
funciona o mundo real. "O desafio atual das escolas é trazer para o
centro das suas reflexões o confronto entre as crianças reais, e não
aquelas das teorias, e as propostas curriculares", explica a antropóloga
e educadora Adriana Friedmann, de São Paulo. Para entender o que isso
significa, basta recuperar uma imagem da infância. Enquanto nas gerações
passadas aprendia-se a ler textos distantes do dia a dia, com frases
como "vovô viu a uva", e sentava-se em carteiras rígidas, hoje as
crianças brincam com as letras e trabalham histórias e lendas com
liberdade.
Trabalho de detetive
O
problema é como identificar uma escola com propostas consistentes para a
educação infantil. Com frequência, os pais chegam às instituições com
perguntas-chavão, como "Qual é a linha pedagógica?", e quase sempre
recebem respostas técnicas e vagas: "Somos socioconstrutivistas",
"montessorianas"... Além de vazias de sentido para os pais, essas
respostas acabam por nivelar todas as instituições, ainda que elas
escondam uma conquista: admitem o valor da experiência prévia do
pequeno, deixando de tratá-lo como alguém sem ideias próprias sobre o
mundo. Uma boa escola reconhece a criança como criança, respeitando-a
sem subestimá-la. O melhor caminho é fazer perguntas simples, óbvias
até, e observar o funcionamento da escola. As crianças parecem felizes?
Brincam juntas ou cada uma isolada em seu canto? Nos intervalos, os
adultos acompanham e intervêm quando necessário ou simplesmente ficam
batendo papo enquanto a criança se esborracha no chão? Quando há uma
briga, a escola faz o quê? E quando não quer comer? E quando morde? Tem
uniforme? Não há resposta-padrão, mas a escola tem de ter uma postura.
"É direito dos pais receber respostas transparentes a todas as dúvidas
para que tenham segurança com relação aos educadores a quem irão confiar
parte tão significativa da vida dos seus filhos", enfatiza a
antropóloga Adriana.
O próximo passo é cruzar a resposta obtida com o que cada família
considera certo e compatível com seus valores. É fundamental conhecer
também a rotina proposta, ou seja, como será o dia do seu filho na
escola. Terá momentos de descanso ou apenas atividades? Há diversidade
ou brincadeiras pré-combinadas? Vários aspectos do desenvolvimento são
contemplados (artes, música, esportes) ou o foco é apenas na
alfabetização? Quando as crianças brincam livremente? Elas encontrarão
na escola coisas que gostam de fazer? Observe que são questões ligadas à
vida que os pais desejam para os filhos. Famílias que acham a criança
tímida e fechada gostariam que ela convivesse muito com os colegas, por
exemplo. Outras, que consideram o filho muito agitado, prefeririam uma
escola que também oferecesse atividades mais calmas. Antes de fazer
perguntas aos coordenadores, é preciso que os pais as façam a si mesmos.
Professores Tinindo
Segundo a pesquisadora em educação Maria Alice Proença, de São Paulo, a
escola deve estar de acordo com o conceito dos pais em relação ao que
consideram uma infância feliz. Algumas famílias acreditam que encontrar o
filho sujo de barro no final do dia é sinal de que brincou e se
divertiu. Outras preferem ver a criança limpa, perfumada e com um livro
na mão, já mergulhada desde cedo na leitura. "A escola e a família devem
ser parceiras e compartilhar valores, crenças e relações de respeito e
afeto", aconselha. Mas, além do campo das características individuais, é
preciso olhar com atenção para a atividade pedagógica. Algumas pistas
para descobrir se a escola faz um bom trabalho são óbvias: uma classe de
educação infantil com 30 crianças e um professor provavelmente é
incontrolável e exigirá uma disciplina incompatível com a idade. O ideal
é que haja um educador para cada dez ou 15 alunos. Do mesmo modo,
educar crianças pequenas deixou de ser tarefa para leigos e requer que
os professores se preparem e estudem constantemente. Na escola de seu
filho, investe-se em formação de professores? Como?
Para a pedagoga Teca Antunes, de São Paulo, uma boa ideia é olhar o que
está exposto na parede das salas de aula. "Será possível ver se há
produção das crianças ou apenas a reprodução de imagens estereotipadas",
analisa. Além disso, é preciso que o ambiente revele empenho em
promover a interação. "Mesas individuais mostram que é valorizada a ação
de cada um, e não do grupo, e que se evita a conversa entre os
pequenos", afirma. Do mesmo modo, armários altos, acima do alcance das
crianças, indicam que não há preocupação com a construção da autonomia,
já que os alunos sempre dependerão dos adultos para pegar os materiais e
brinquedos com que lidarão.
Ao colocar todas as suas dúvidas e perguntas sobre a mesa, não se sinta
um peixe fora dágua: as descobertas recentes sobre o valor da educação
infantil desencadearam um grande debate no mundo todo, e a questão
desembarcou por aqui também. Recentemente, o Ministério da Educação, o
Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Fundação Carlos Chagas
avaliaram o desempenho de 174 creches e pré-escolas públicas de seis
capitais brasileiras. Foram analisados quesitos como espaço físico,
mobiliário, linguagem utilizada com os alunos e estímulo ao raciocínio.
Todas foram reprovadas. Os pontos que mais inquietaram os pesquisadores:
a má formação dos professores, que não sabem o que fazer com as
crianças pequenas em sala de aula, e a falta de uma proposta pedagógica.
"As três palavras que mais se ouvem nesses locais são: fique sentado,
durma e quieto!", observa Maria do Pilar Lacerda, secretária
nacional da educação básica. A pesquisa deverá oferecer amparo para
ações com as prefeituras com a meta de melhorar a educação infantil.
Segundo Maria do Pilar, só há pouco tempo as creches começaram a se
preocupar com o aspecto educativo. Um avanço recente, que deve melhorar o
quadro, foi a aprovação, este ano, de uma mudança na Constituição que
torna a educação obrigatória para crianças a partir de 4 anos e habilita
os municípios a receber mais recursos. Hoje, estima-se que 25% dos
pequenos com idade entre 4 e 5 anos estejam fora das escolas. É um
número muito alto. "A meta é que nos próximos anos o atendimento seja
universalizado", afirma a secretária.
Fonte: Educar para Crescer
Fonte: Educar para Crescer
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